24 de setembro de 2009

918

  
Último dia de inverno. Oito horas trancada na masmorra (ok, alguns chamam de trabalho). Saio e percebo que chove. Não uma chuvinha fina e refrescante, mas um dilúvio de amedrontar até a tripulação da Arca de Noé. Vou andando em direção ao ponto de ônibus, de famílião na mão, esquivando-me das poças d´água. Percebo que há uma aglomeração de pessoas fora do lugar habitual, o ponto de ônibus. Meus dois neurônios se conectam e percebem que as pessoas (umas 20) “transferiram” o ponto de ônibus para outro local, porque lá não seria possível parar nem o Titanic, de tanta água acumulada. Noto que as pessoas murmuram um pouco irritadas e penso “Ai, gente, tudo esse povo reclama. É só uma chuva forte”. Meu ônibus finalmente está vindo. “Que sorte”, penso. Faço sinal de forma enfática, afinal está chovendo e o motorista pode não me ver direito, sei lá. Não quero correr o risco de ficar parada no ponto por muito tempo. Ao meu lado, outras cinco ou seis pessoas acenam d-e-s-e-s-p-e-r-a-d-a-s para o mesmo ônibus. Ele passa direto. Começo a entender um pouco mais aquela irritação inicial da massa. A chuva? Já parecia cena de filme-catástrofe. As pessoas ao redor apresentam um comportamento estranho: para qualquer ônibus, de qualquer linha, acenam como se fosse o último barco para Fernando de Noronha. Dois seis ônibus que passaram, dois pararam. Meu ônibus de novo. Junto-me àquele grupo anterior, que agora ganhou mais um ou dois guerreiros, e faço, agora já no meio da rua, sem nenhuma vergonha, sinal para ele parar. Passou d-i-r-e-t-o. O que o motorista achava que aquelas 30 pessoas estavam fazendo ali? Treinando coreografia de axé com os braços para cima? Eles são robôs? Não têm mãe? Nunca precisaram pegar ônibus em dia de chuva? Olho para o relógio e 27 minutos já passaram. Ótimo, não preciso mais me preocupar em não molhar muito os pés. Já estou molhada até os joelhos. Começo a ter inveja das pessoas que passam dentro de Fuscas, FIAT 147, Chevette, caminhão ‘afrete’... Faço cálculos de quanto sairá um táxi daquele buraco até minha casa, olho para dentro de todos os carros na esperança de reconhecer um colega de trabalho, lamento não ter juntado dinheiro para comprar aquele carro velho que vi no feirão, até que avisto outro barco, quer dizer, ônibus da salvação. Fiz um sinal meio mole e ele...diminuiu a velocidade. Como não acredito em milagres, corri em sua direção e dei aquela batidinha ridícula na porta dianteira, como quem diz “deixa eu entrar, por favor?”. Não há dignidade no dilúvio. Depois de 42 minutos em pé, na chuva, fui salva pelo bom senso do motorista do carro 86099, um senhorzinho de bigode, de quem esqueci de perguntar o nome. Eu testei pegar o 918 fora do ponto e não aprovei. E você?

Um comentário:

  1. Eu também passo por esse transtorno todo santo dia. Os motoristas pensam que os passageiros são sacos de batata pq não têm um pingo de educação e consideração com a gente. Quando eu vejo algum motorista dessa linha educado, até me espanto, tamanha a raridade!

    ResponderExcluir